"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

Cravo vermelho, flor de Abril








Maria saiu de passo apressado. Viu o autocarro já a subir a rua, correu, fez sinal e este parou. “Entra camarada”, diz o motorista risonho. Dentro do autocarro, que ia cheio, viam-se bandeiras vermelhas e cantavam-se cantigas de Abril.  
Maria agora misturava-se com a multidão e passava a ser um ponto apenas daquele mar de gente. Gente que se concentrava frente às escadarias da Assembleia da Republica, gente que gritava “Fascismo nunca mais”. 
A multidão inquieta-se e entre palavras de ordem, sobe o 1º degrau. A polícia reforça o cordão. As palavras de ordem ouvem-se agora mais fortes, é agora, outro degrau subido. Sirenes da polícia… É agora!

No dia seguinte Catarina entra na fábrica atrasada. 
  – Isto são horas de chegar? 
– Foram apenas 5 minutos chefe.
– Olha, lá fora há uma enorme fila de gente que quer o teu emprego.
– Merda, já sei – vestiu a bata azul, pegou na esfregona e murmurou entre dentes – Fascista.
– Vá, toca a trabalhar. Temos que produzir, o país está em crise. – continuou o chefe, gritando ordens enquanto caminhava – Nunca ninguém ficou rico a preguiçar e tu, Catarina, tens de fazer umas horinhas. Mas não te preocupes que vão a "banco de horas"…
– Fascista. – murmurou novamente Catarina, removendo uma nódoa de óleo do chão.
Já o sol se tinha posto há muito quando Catarina saiu da fábrica. Saiu a correr, dirigiu-se ao cinema, comprou o bilhete sem ligar a mínima importância ao comentário da porteira “olhe que já começou há muito.” 

A multidão inquieta-se e entre palavras de ordem, sobe o 1º degrau. A polícia reforça o cordão. As palavras de ordem ouvem-se agora mais fortes, é agora, outro degrau subido. Sirenes da polícia… É agora!

Catarina mexe-se na cadeira emociona-se sempre nesta parte.
– Olá! Vejo-te sempre aqui! Gostas de “Cravo vermelho, flor de Abril”? – pergunta uma rapariga que se sentou ao lado dela.
– Chiuuuu, estou a ver o filme – responde Catarina 
– Agora é a minha deixa: O rapaz de preto… Vamos subir mais um degrau, depois é a cena da pancadaria. Eu sou a que tenta atirar uma pedra – esclarece a rapariga.
– Cala-te, estou a ver o filme – ordena Catarina, já irritada. 
Catarina olha a tela com mais atenção. Algo está errado. Devia efetivamente aparecer o rapaz de negro, e depois a rapariga que atirava uma pedra, mas em vez disso os manifestantes andam de um lado para o outro gritando palavras sem nexo. Este não é o filme “Cravo vermelho, flor de Abril“, não pode ser. Catarina sente-se furiosa levanta-se e vai à bilheteira.
– Comprei o bilhete para ver “Cravo vermelho, flor de Abril” mas não é esse o filme que está a passar, quero o meu dinheiro de volta.
– Não sei se alteraram, vou ver, mas era esse o filme programado. Aguarde um momento – responde a bilheteira.
– Merda para isto, hoje tudo acontece errado! Primeiro aquela chata sempre a falar… Há gente estúpida que fala no cinema. Irra que não se tocam?  
– Espera aí, conta-me porque vês este filme todos os dias?
– Tu outra vez? Quem és? O que queres de mim?
– Eu sou Maria, a que atira a pedra ao polícia.
– Que pedra? Estas a falar do quê?
– Do filme, de que havia de ser? Eu sou a Maria do filme.
– Não estou louca! Só faltava mais essa, pagar 80€ a um psiquiatra…
– Vamos tomar um café? Podemos conversar sobre o filme. Também estou cansada. Acho que tenho uma tendinite, provocada pelo movimento de atirar a pedra, entendes?
Percorrem as ruas de Lisboa, entram no café e sentam-se frente-a-frente. 
– Conta lá a tua história de uma vez por todas – diz Catarina em tom paciente.
– A minha história é simples – Maria sorri, finalmente alguém a vai ouvir – Eu sou a Juventude que imigra, a Juventude revoltada. O meu papel é arremessar uma pedra ao polícia, mas o meu braço é travado por um polícia à civil, penetra da manif. Agora doí-me o braço. Não sei se estás a ver… Este movimento vezes sem conta… Tenho que ir a um médico, estou de certeza absoluta com uma tendinite.
– És sem dúvida muito parecida com Maria. Sabes, sinto muita admiração por ela. Que coragem! E a parte do julgamento? Lindo! O povo cá fora a apoiá-la, a voz gloriosa do nosso Zeca… “era de noite e levaram-no”, adoro! – sorrindo 
começa a cantarolar:

Era de noite e levaram 
Era de noite e levaram 
Quem nesta cama dormia 
Nela dormia, nela dormia

– Não sou parecida com ela. Eu sou ela, ainda não entendeste?
– Maria é um personagem, como podes ser ela? 
– Fácil, cansei-me de estar a fazer sempre o mesmo e saí da tela. Simples não é? Olha lembras-te daquele filme “Rosa púrpura do Cairo”? Tirei a ideia daí…
– Não sei de que estás a falar, mas continua.
– Sabes pouco de cinema. Que vamos fazer agora?
– Como "que vamos fazer"? Eu vou para casa dormir, amanhã bem cedo tenho que estar na fábrica. O fascista do meu chefe está mortinho por me despedir. Isto está péssimo, fascistas por todo o lado.
– E eu, que devo fazer? Para onde vou? Não quero voltar à tela, estou com uma tendinite…
– Bem, esta noite podes dormir lá em casa, amanha logo se vê.

Maria e Catarina seguiam pela rua a pé, era tarde, mas Lisboa é uma cidade que não dorme. Um homem forte, vestido desportivamente, para em frente às duas.
– Venham comigo – diz ele em voz baixa mas firme.
– Sim? Por alma de quem? – pergunta Catarina.
O homem tira do bolso a carteira mostra um cartão e diz:
– Judiciária, acompanhem-me.
– Estou habituada a esta cena, mas tu devias ter-me segurado o braço no exato momento em que eu arremessava a pedra. Alteraram o guião? – Diz Maria, num déjà vu.
– Está calada e anda, não tenho tempo para conversas.
Um carro para junto ao passeio e o homem empurra as duas lá para dentro. 
– Para onde nos levam? Exijo um advogado, que fizemos nós? Aquilo no Facebook era uma brincadeira, eu não queria insultar o ministro era só uma boca. Toda a gente o faz, porque me estão a prender logo a mim? 
– Está calada que já falas.
O carro percorreu as ruas de Lisboa, entrou numa garagem subterrânea e parou, os dois polícias saíram, abriram as portas de trás e entre empurrões e ordens conduziram as duas raparigas ao piso superior. Entram numa sala enorme. À volta de uma mesa estavam pessoas sentadas, na maioria homens. Catarina reconheceu-os, já os tinha visto na TV, eram os ministros. "Estou tramada. Foda-se, toda a gente insulta os ministros e é a mim que me pedem contas! E agora?" Maria, por seu turno, parecia pouco preocupada com a situação e mirava a sala totalmente indiferente. Foi o homem sentado na cabeceira da mesa que se levantou e lhes dirigiu a palavra. 
– Maria, podes explicar ao Conselho de Ministros porque saíste da tela? Vejo-te muito jovem, tens consciência do problema que criaste? "Cravo vermelho, flor de Abril" é um filme realizado pela oposição ao regime, a gente deixa-o passar livremente nos cinemas, vivemos numa democracia, onde as pessoas podem exprimir as suas ideias livremente. Sabes o que isto quer dizer? Podem falar. Ali a tua amiga Catarina fala mal do governo todos os dias, na sua página do Facebook e nada lhe acontece. É feliz, tem um emprego. Falar livremente é diferente de andar a fazer coisas. Concretamente qual era a tua ideia ao saíres da tela? Quem te deu essa ordem? Estás ao serviço de quem?
– Eu saí da tela porque via a Catarina todos os dias na plateia, estou com uma tendinite, do movimento repetitivo de arremessar a pedra ao polícia, pensei que Catarina me podia ajudar, além do mais, estava farta de fazer sempre o mesmo…
– Não me faças perder a paciência onde foste buscar a ideia de sair da tela? Onde já se viu uma coisa assim? Quem foi que te mandou? – Insistia o 1º Ministro.
– Ouvi esta ideia nos bastidores, acho que já houve alguém em tempos que saiu da tela, existe um filme assim. Oiçam, eu estou com uma dor horrível no braço. Isto dói que se farta, quero um médico.
– Se V. Exa quiser a gente leva-a ali para a sala ao lado e fazemos ela falar – acrescenta um dos polícias.
– Toda a gente tem direito a assistência médica, está na nossa constituição – acrescenta Catarina já mais segura. Parece que o problema não é ela nem a sua página no Facebook, mas sim a maluca da Maria. Ela sabia que alguma coisa não estava bem naquela história.
– Tragam um médico, já não posso ouvir falar na tendinite – pede o 1º Ministro.
– Deixe estar, eu falo com ela – sugere uma das duas mulheres que estavam na sala. Levanta-se senta-se ao lado de Maria pega-lhe na mão e numa voz muito doce diz-lhe:
– Maria o médico já te vem ver, depois de estares melhor voltas para a tela – sorri – não voltas? É lá o teu lugar és uma excelente personagem, lutadora, uma verdadeira revolucionária. 
– Porque tem ela de voltar? Pode morar por uns tempos comigo, deve ser muito chato ser personagem de um filme, estar sempre a fazer o mesmo – comenta Catarina.
– Não, ela volta! – ripostou a mulher, agora com uma voz áspera – Foi assim que aconteceu da outra vez, no tal filme que a inspirou, se bem me lembro a "Rosa purpura do Cairo", de Woody Allen.
– Podemos fazer de maneira diferente. Porque temos que estar sempre a fazer o mesmo? Afinal nós não estamos dentro de um filme. – Insiste Catarina.
– Ela volta, ponto final. Tu, Catarina, não passas de uma ignorante! Queres fazer melhor que o grande realizador? Tu que és uma simples mulher de limpeza! Achas-te muito esperta? No Filme Rosa purpura do Cairo o personagem volta para a tela. Uma vez que ela se inspirou nesse filme para sair da tela, inspira-se também para voltar – a voz da mulher era agora exaltada, quase que gritava. Os outros homens que estavam na sala mal falavam, de vez enquanto ouviam-se lamentos "que situação. Como vamos sair disto?" 
Catarina sentiu-se pequenina, sim ela não era ninguém, e só ali estava por causa da Maria. Ela nunca tinha feito nada, mas a ideia de conviver dia-a-dia com o personagem de um filme da oposição parecia-lhe criativa. Mas, mas se dizem que esse tal de Woody Allen é que era o mestre de cinema, quem era ela afinal? Sentiu-se estúpida, à força de todos a chamarem estúpida. No seu entender esta história não tinha nada a ver com a outra. No seu entender, podia jurar que todos aqueles governantes estavam com medo de algo. E se todos os personagens fizessem um papel diferente? Porque têm que se cingir ao guião? Mas ela, Catarina, era apenas uma empregada de limpeza, e ter esse emprego nos dias que correm já não era mau. Um filme sem guião, uma manif sem guião isso é que era! Mas Catarina não sabia nada, era uma ignorante. Mas, mesmo sendo uma ignorante, naquele momento teve a certeza absoluta que o problema era haver um guião. O problema é haver sempre quem mande, quem impõe pela força a sua vontade. 
– Se os senhores quiserem a gente leva as moças ali para a salinha ao lado e resolvemos o assunto rapidamente – insistiu o polícia pela 2ª vez. 
– Não! – a mulher agora estava de pé e visivelmente perturbada – Não. É um filme da oposição ao regime, temos que levar isto com sensatez. Vivemos em Democracia, o que me preocupa, é se os outros personagens começam a ter ideias também, ideias próprias…
– Os cinemas estão fechados, mas claro que isto tem de ser resolvido rapidamente… – comenta um homem da mesa – Que raio de situação.
– O médico chegou – exclama o 1º ministro – Façam-no entrar rapidamente que este assunto tem de ser resolvido esta noite. 
O médico entra e fala com Maria na presença de todos. Manda-a levantar o braço, ela queixa-se, e ele conclui:
– É uma tendinite aguda. É grave, mas é curável. Recomendo estes medicamentos, descanso e 10 sessões de fisioterapia.
– Dr. venha comigo, vamos ter uma conversa em particular – interrompe a mulher.
Minutos depois o médico entra de novo na sala e diz:
– Ouve Maria, depois de ter conferenciado com os mais consagrados especialistas nacionais, e sabes que temos bons médicos, concluímos que tens apenas uma inflamação sem importância no músculo – sentou-se à mesa tirou uma receita do bolso e prescreveu um medicamento – Tomas isto e vais-te sentir melhor.
– É genérico? Não é? – Comentou o homem que estava sentado ao lado dele – Não vale a pena gastar muito dinheiro com isto.
Um dos polícias sai para comprar o medicamento. Na sala ficam todos em silêncio. Alguns minutos depois o polícia volta com o medicamento, Maria toma-o e o 1º ministro levanta-se e diz:
– Agora Maria o Sr. policia vai-te levar de volta ao cinema, até à sessão das 6 de amanhã, ficarás melhor. E tu – Aponta o dedo indicador a Catarina – Fica calada, se não queres perder o teu emprego. Amanhã podes gozar oito horas das 387 horas que tens em "banco de horas". Como vês somos compreensivos com os trabalhadores, só queremos o bem do povo.
– Não quero voltar – exclama Maria. – Quero ficar aqui, ter uma vida própria. Quero fazer coisas sem guião.
– Cala-te – enfurecido o 1º ministro dá um murro na mesa. – Agora cada um faz o que quer? Somos tolerantes, somos democráticos, deixamos passar um filme que é um ultraje, tratamos de ti, e tu agradeces assim? 
– Então querida? Já tínhamos conversado, estava tudo assente. Eu entendo que não queiras voltar, mas pensa, sem ti o filme não passa. Tu és a corajosa revolucionaria que QUASE atira a pedra ao polícia. Estamos em Abril, o povo esta a gostar do filme ”cravo vermelho, flor de Abril“ – Argumenta a mulher.
Maria vai até à janela e pensa que o filme é importante. Sim, tinha ouvido conversas dos realizadores. Estamos em Abril, o mês em que houve a revolução. A data é simbólica. Sim, tinha de voltar. Afinal o remedio já estava a fazer efeito.
– Parece que já não me dói tanto – comenta Maria, sorrindo, olhando para o médico – Obrigada. 
– Estás a ver… – sorri o médico. E, virando-se para o lado, comenta baixinho com a mulher – Pobre pequena, pobre pequena.
– Vou voltar – decide Maria – Podem-me levar de volta.
– Não voltes. Escuta, é mentira. Tomaste apenas um analgésico não estás curada da tua tendinite, é tudo mentira. Fica! Eles estão com medo de ti. Estão com medo que a gente não siga o guião. Não vês que é tudo mentira? "Cravo vermelho, flor de Abril" está nos cinemas mas é um jogo sujo e falso, todos são personagens cúmplices desta sujeira que esta a acontecer, é tudo para enganar… Não voltes Maria, não voltes – Catarina gritava desesperada. – Não voltes, acredita que é possível uma outra vida. Tenta entender que tu não precisas do realizador é ele que precisa de ti, sem ti ele não é nada. 

A mulher faz um sinal com a cabeça a um polícia e este leva-a por entre pontapés. O outro polícia conduz Maria ao cinema.

Uma semana depois Catarina sai do Centro de Emprego. Está triste, trás no olhar um vazio absoluto. Segue coxeando, passa pelo cinema onde via o filme. A primeira sessão estava no intervalo e as pessoas cá fora comentavam "grande filme", "um passo em frente na luta contra o fascismo". Catarina pensou "ah, se eles soubessem…" Segue sem entrar o seu caminho cantarolando:

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram 
Quem nesta cama dormia 
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram 
Sua boca amordaçaram 
Com panos de seda fria 
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram 
Era de noite e roubaram 
O que na casa havia 
na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram 
Só corpos negros ficaram 
Dentro da casa vazia 
casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria 
Rosa branca, rosa fria 
Na boca da madrugada 
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia 
Hei-de plantar-te um dia 
Sobre o meu peito queimada 
Na madrugada, na madrugada 

Um carro em alta velocidade vira a esquina, galga o passeio. Catarina  cai no chão  e ali fica … sozinha na noite...
Segundos antes do filme acabar,  Maria sai da tela,  atravessa despercebidamente a plateia e já na rua  grita:
– Catarina! Tinhas razão, vamos tentar viver sem um guião – Maria corre pela rua gritando, quando dá com o corpo de Catarina caído no chão – Catarina! Catarina!  Cabrões de merda, CABRÕES DE MERDA que a mataram – os olhos enchem-se de lágrimas e a soluçar sobre o peito de Catarina profetiza – Vou seguir o meu caminho. Sem guião, sem dono, sem lei, sem heróis. 

Setúbal, 21 de Abril de 2014
Liberdade

Aos que vivem sem "guião" 















3 comentários:

  1. Muito bom!!!! Que seja lido e entendido…está fantástico!!!! Adorei a ideia… está genial!

    Sandra Joaquim

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