"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

sábado, 28 de julho de 2012



XII 
O Homem da corda

Dizem que quando se morre a alma liberta-se do corpo e vagueia pela obscuridade do Limbo, até encontrar um corpo que lhe sirva. E o que torna esta teoria plausível são as estranhas coisas que acontecem em noites de tempestade. Madeira a estalar, sombras que se agitam na noite... Ah, já me esquecia, também aquela inexplicável sensação de  déjà vu.
Dizem – mas não sabemos se é verdade – que é esta incerteza que torna as noites de tempestade tão aprazíveis (se estivermos em casa claro).

...

Era uma vez um Imperador muito poderoso. Tão poderoso, que todos os reinos e condados do seu império lhe prestavam vassalagem. Porém, num condado muito pequenino, o seu chefe não estava para aí virado… 
– Vassalagem ao Imperador? Era o que mais faltava! Não, não e não.
– Mas tem que ser, majestade. Eu dei a minha palavra que irias prestar vassalagem… É uma questão de honra!
– Honra? Mas que grande idiota que tu me saíste. Qual honra qual carapuça! Sabes o que vou fazer? Vou montar no meu cavalo e ir por aí abaixo a cortar cabeças. E tudo isto será meu. Que se lixe o Imperador! 
Se assim o pensou, melhor o fez. O condado deixou de ser condado, ele tornou-se Rei e borrifou-se para o para o Imperador.
Porém o seu professor, que tinha prometido vassalagem ao Imperador, sentiu-se muito humilhado. A sua honra estava manchada. E agora? 
Atormentado com esta questão, mete-se a caminho para ir prestar contas ao Imperador. No pescoço levava uma corda. Mas não foi sozinho, obrigou sua companheira e os filhos a irem com ele. E lá foram todos, de corda ao pescoço, salvar a honra da família.

Pum, catrapum, pum, pum! 

Egas, o professor, morre e a sua alma percorre o Limbo...

Plim, plim, plim…


Oito séculos depois, naquela mesma cidade onde o Rei desobediente viveu… numa noite de estranhos ruídos e trovoadas de Verão nasce um bebé: Pedro. Ao vê-lo tão rechonchudo, aquela alma penada, farta de vaguear, pensou que seria o corpo certo para habitar.
Pedro cresceu sempre muito bem comportado, sempre bem vestido, sempre bem penteadinho… 
Ia à missa todos os domingos (até mais que uma vez), comia sempre a sopa toda (não só um prato, mas quase sempre dois, ou três). E, quando regressava da escola, fazia sempre dois TPC’s. Era uma criança simplesmente adorável. Tão adorável que chegou a chefe da nação.
Foi numa dessas reuniões da governação, que o Pedro teve um déjà vu… “Vassalagem, pois claro!” Aquilo lembrava-lhe algo já perdido no tempo. 
Na verdade, o mundo não estava tão diferente. Continuavam a existir países poderosos e os outros tinham que lhes prestar vassalagem. Também se continuavam a cortar cabeças, mas às escondidas. Pouca coisa havia mudado.
O Império empresta dinheiro, mas vocês vão ter que obedecer. Vão ter que devolver tudo, e mais ainda muito mais. Não me importa nada que o vosso povo passe fome, que os doentes morram por falta de hospitais, que os jovens fiquem sem instrução – Dito isto a Imperatriz sorri e, com olhinhos de carneiro mal morto, diz:
Assinem lá aqui, queridinhos… Ou teremos que cortar umas cabeças…
– Sim, claro que o meu país vai prestar vassalagem – disse o Pedro, engolindo em seco – Onde assino? Onde assino?
Por via das dúvidas, e porque sempre foi bem comportado, o Pedro assinou o acordo de vassalagem duas vezes. Não, não foi em duplicado. Foi com uma assinatura por baixo da outra, porque ele fazia sempre tudo melhor que os outros. 
          Quando chegou ao seu país comunicou ao povo:
– O acordo de vassalagem está assinado. Temos que mandar muito dinheiro para o Império. Os bancos do império estão falidos, temos que os salvar. Eu dei a minha palavra de honra que ia cumprir.
Na rua, o povo exaltado, gritava:
       Não pagamos, não pagamos!
Pedro não gostou daquilo. E se aquele povo todo entrasse por ali a dentro? Aflito, fechou a janela apressadamente. Foi então que teve outro momento de déjà vu. “Oh meu Deus! Estou desgraçado. A corda...” 
Desde esse dia Pedro nunca mais dormiu bem. Sonhava com cordas, sonhava com desobediência. 
Volta e meia Pedro ia à varanda gritar ao seu povo:
– Eu prometi vassalagem! Temos que cumprir, custe o que custar. Mas, sempre que dizia isto – o que, por sinal, era muitas vezes – o povo respondia:
– Não pagamos, não pagamos!
Pedro andava aflito, até não estava mal de todo na vida. Tinha um bom emprego e um bom salário; Tinha chegado quase a rei… Não, desta vez a corda não seria no pescoço dele. Tinha que pensar noutra coisa. O povo tinha que ser dominado, a sua honra tinha que ser salva. Pensou, pensou, pensou, até que se lembrou da história da bela adormecida, e se adormecesse o povo por cem anos?
E eis que um estranho feitiço cai sobre o povo. Hipnotizadas e de corda ao pescoço, as pessoas do país de Pedro, juntaram os seus pertences e entregaram tudo à Imperatriz.
Pedro está feliz. Livrou-se da maldição da corda. Desta vez foi o povo a levar com ela! 

Cabum, bum, bummmmmmmmmmmm! 
Sopra o vento furiosamente. Raios de fogo cruzam os céus. Trovadas de Verão, madeira a estalar, sombras que se agitam na noite. O mar – de gloriosas memórias – enfurece-se… Mas parece que nada acorda o povo adormecido.

Dizem, que o rei desobediente anda por aí perdido na escuridão da noite...

Dizem, mas eu não acredito.

Liberdade
Histórias sem pés nem cabeça 

2 comentários:

  1. Como creio em Deus( ou no que lhe quiserem chamar), creio também na reencarnação, por mero sentido de justiça.

    Saudações cordiais

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