"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

sábado, 19 de maio de 2012



(desenho de José Pedro)


X
O pau que nada valia
 e
o boneco que não servia para nada


Bonifácio vivia perto de um bosque, que, como todos os bosques, era fresco e verde, de cheiros intensos e agradáveis. Bonifácio tinha uma vida simples. Fazia a sua horta vendia os produtos excedentes no mercado, o que lhe davam dinheiro suficiente para comprar o que necessitava.
Um dia Bonifácio foi ao bosque com o fim de buscar uns paus para a lareira e teve uma ideia: pegou no seu canivete e, do pau que nada valia, construiu um bonequinho que para nada servia.
No dia da feira, Bonifácio vendeu o boneco. Na semana seguinte, o comprador do Boneco foi ter com o Bonifácio e encomendou mais 5 bonecos. Intrigado com esta encomenda, Bonifácio vai para casa e comenta com sua mulher:

-         Tive uma encomenda de 5 bonecos. Para que raio o homem quer 5 bonecos? Para que serve um boneco feito de um pau? Vais ter que ser tu a tratar da horta que eu tenho que fazer os bonecos.
-         Está bem. Não me importo de tratar da horta.

Para seu espanto, na semana seguinte, outra encomenda. Desta vez 10 bonecos. Estranho aquele mistério. Tão estranho que Bonifácio vai averiguar o que raio se estava a passar. No fim da feira, Bonifácio segue o homem e dá com uma loja onde estavam os bonecos na montra com um grande letreiro “compre o boneco da sorte, ele atrai dinheiro, amor e sucesso”. À porta da loja, uma grande multidão. Todos queriam os bonecos...

A partir daquele dia, Bonifácio nunca mais teve um minuto de descanso. Era tanto o trabalho que ele e sua mulher passavam os dias a fazer bonecos e, mesmo assim, não davam vazão a tanta encomenda.
-  Não acho muito correcto o Cipriano andar a enganar as pessoas, dizendo que o boneco dá sorte – comentava, volta e meia, a sua mulher.
- Cala-te, mulher, o importante é vender bonecos. Cada um acredita no que quer- respondia-lhe Bonifácio.
O grande argumento de Bonifácio é que um dia seriam ricos. Tão ricos que teriam um carro, uma casa grande, muito, muito dinheiro e poder. Seriam pessoas poderosas.
Bonifácio teve que contratar pessoas para ajudar na construção do boneco, a quem pagava a décima parte do valor do boneco. Construi um armazém ao lado da sua casa, onde os trabalhadores faziam os bonecos. Depois de prontos, os bonecos iam para um quarto sem janelas. Diziam que era ali que Bonifácio lhes dava o banho da sorte.
-   Home, não acho nada disto correcto. Tu não dás banho da sorte nenhum. Estás a enganar as pessoas – comentava, volta e meia, a sua mulher.
-  Cala-te, mulher burra, cala-te. Eu é que sei.
Agora Bonifácio já não fazia bonecos. Tomava conta dos seu trabalhadores que eram muitos. Ao lado do armazém, outros armazéns foram construídos. O negócio dos bonecos ia de vento em poupa.
Todos queriam o boneco da sorte. Por outro lado, a loja do Cipriano também cresceu. Teve de contratar mais empregados para vender o boneco e abriu outras lojas, noutras terras. Também Cipriano, agora, já não vendia bonecos. Tomava conta dos seus empregados.
Na vila havia movimento, agitação e comentava-se:
-  Já tens o boneco da sorte?
-  Sim, mas mais 15 meses de trabalho e terei mais dois.
- É fantástico. É que dá mesmo sorte! Tive tanta sorte que arranjei trabalho na fábrica de bonecos. Depois do banho da sorte, o boneco fica poderoso. Simplesmente fantástico.
-  Pois é. Vou trabalhar muito, para ter muitos bonecos.
É que não bastava só um boneco. Para se ter muita sorte, ter-se-ia que ter vários bonecos.
As pessoas andavam contentes, muito contentes. Agora tinham sorte, tinham sorte em ter trabalho, tinham sorte em ter comida, tinham sorte em ter filhos bonitos e perfeitos. Era uma vila de sortudos e tudo graças ao boneco da sorte.
A vila estava eternamente agradecida a Bonifácio. De tal forma, que no centro da vila foi inaugurada uma estátua de Bonifácio.
O único problema de Bonifácio era a sua mulher burra, que estava sempre a dizer:
- Home! Eu não acho bem. Para que queres tanto dinheiro? As pessoas trabalham tanto e é tudo mentira. O boneco é só um pau que nada vale.
-  Tu cala-te, mulher burra.
- Que vais fazer com os sacos de dinheiro que tens escondidos?
-  Ai mulher que tu és burra, tão tu não vês que o dinheiro da vila agora está todo aqui? Muito em breve as pessoas, se quiserem comprar comida, terão primeiro que me comprar dinheiro.
-  Mas isso é uma coisa muito má. Tu vais vender o dinheiro?
-   Pois claro que vou. Mulher, olha que tu és burra.
-  Tu és mau. Eu vou contar a verdade a toda a gente.
Bonifácio ficou verde de raiva. Ninguém podia saber a verdade. Tinha que arranjar um plano para se livrar da mulher. Se assim pensou melhor o fez.

Num dia cinzento, foi encontrado o corpo da mulher de Bonifácio.

Veio a polícia e o juiz. Bonifácio estava preocupado e foi falar com o juiz e com o chefe da polícia.
-  Senhores, entendam, eu não posso ir preso. Se for preso, quem dará o banho da sorte aos bonecos?
-   Mas a lei tem que ser cumprida.
-  Uma parte das vendas será para vocês. Fica assim combinado.
- Parece-me uma boa ideia, a vila não pode ficar sem o boneco. Se a fábrica fechar, ficarão todos no desemprego. Não, isso não pode acontecer.
O julgamento da morte da mulher de Bonifácio aconteceu. A polícia conclui que foi morta por um assaltante. Afinal ninguém tinha visto Bonifácio matar a mulher.
Bonifácio andava pelos cantos, fingindo-se muito triste com a morte de sua mulher. O povo, que adorava Bonifácio, ao vê-lo tão triste dava-lhe mimos, muitos mimos ... tudo para que a vila não ficasse sem o boneco.
Bonifácio gostava de ser amado pelo povo. Gostava de ser caridoso. Por isso, sempre que alguém não tinha dinheiro, Bonifácio emprestava 10 moedas. A única condição seria dali a uns meses serem devolvidas 11 moedas...
E a vila cresceu e Bonifácio tornou-se o homem mais importante da vila. E tudo isto graças a um pau que nada valia.
Ahhh! Já me esquecia de vos contar que o bosque fresco e verde, de cheiros intensos e agradáveis, desapareceu, para dar lugar a montes e montes de armazéns mal cheirosos.


Histórias sem pés nem cabeça
Liberdade
Setúbal, 19 de Maio de 2012 

5 comentários:

  1. Adorei!! Se aprofundasses, dava um bom livro. Banca, ambição desmedida, capitalismo, o dinheiro como principal valor, preocupações ecológicas... Tens aí uma boa intriga.

    ResponderEliminar
  2. Ainda bem ... fico contente podes agora contar aos teus filhos

    ResponderEliminar
  3. Mto bom!!!!!! a falta de ética e valores num mundo capitalista...

    ResponderEliminar

este blogue destina-se a crianças, por favor use uma linguagem equilibrada