"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

domingo, 15 de abril de 2012



Meissa
IX
desenho de Leonor Abreu 


Parte I

Na fábrica reinava uma grande euforia. Iam ser distribuídos os prémios de produtividade. Sofia, essa estava radiante, jovem ainda ia receber pela oitava vez consecutiva o seu prémio. O seu IP, Índice de Produtividade era o mais elevado da fábrica. Sofia era admirada e invejada pelos colegas.
 Esperava-se agora que este prémio fosse atribuído pelo patrão, em pessoa, e na presença dos mais altos dirigentes da nação. Sofia era um exemplo a seguir. Logo à noite seria capa de todos os noticiários. Neste dia, Sofia, ao tocar da sirene da fábrica, larga os esquemas e projectos e sai a correr. Ia buscar a sua filhota à escola, tomar um duche e arranjar-se para estar em condições para a festa da fábrica. A vida corria-lhe muito bem. Licenciada em engenharia electrónica aos 22 anos, estagiou na fábrica e, graças ao seu alto IP, foi fácil conseguir um trabalho. Trabalhava ali há dois anos e ganhou sempre o prémio de produtividade trimestral. Este ano seria aumentada. Sonhava em trocar de carro, comprar montes e montes de roupa e sapatos e até mesmo uma bicicleta para Meissa. Enquanto conduzia, o seu pensamento voava, fazia projectos de tudo o que poderia comprar com este novo aumento.
Meissa, a sua filha, estava a fazer seis anos. Em Setembro deixaria o infantário e iria para a escola. Sofia tinha sido mãe muito jovem, ainda andava a estudar, mas a gravidez e o ser mãe não afectou os seus estudos. Por essa altura desentendeu-se com o companheiro e foi viver sozinha com a menina. Orgulhosa como era, raras foram as vezes que pediu ajuda à família. Ganhava suficientemente bem para se sustentar e nada faltar à sua pequerrucha. O pouco tempo que a fábrica deixava livre, Sofia dedicava-o a Meissa.
Chegada à escola, encontra D. Constância, com um ar sério e grave.
-         Temos que falar Sofia. Venha até ao meu gabinete.
-         Mas que aconteceu? O que se passa com a minha filha? - pergunta Sofia já aflita.
-         Não podia retardar mais esta situação. Meissa apresenta comportamentos fora do padrão, não reconhece as letras, ainda fala mal, chora muito, atira-se para o chão, faz grandes birras no recreio. É perfeitamente indomável...
-         Ainda é uma criança – justificou Sofia
Ela já havia reparado que a sua filha era uma criança difícil. Aos 3 anos ainda não falava e foi muito a custo e só mesmo por ser uma pessoa com muitas influencias que a menina não foi avaliada nessa altura.
-         Sofia... Sabe... É que hoje estiveram cá os técnicos de saúde.... não pude evitar... o processo da entrada na escola....
-         Diga, diga logo de uma vez o que se passa.
-         Meissa é autista... ou seja o seu IP é nulo...
Sofia ficou estática. Não sabia muito bem o que ia acontecer. Já tinha ouvido falar em crianças com o IP nulo, mas não sabia muito bem. Havia lares para estas crianças...
-Então, Sofia... tem que reagir... o lar não é o fim do mundo pode ir ver a sua menina uma vez por semana.. Lá ela terá comida, um tecto... a Nação não abandona os seus cidadãos.
Sem dizer uma palavra, Sofia pega em Meissa e sai da escola. Já dentro do carro, D. Maria, a mais velha trabalhadora do infantário, faz um sinal para que esperasse.
-         Sofia, tomei conta de Meissa durante seis anos. Fiz tudo o que me foi possível. Procure esta senhora.
E meteu-lhe na mão um papel. Maria abraçou Meissa e deu-lhe um beijo, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Sofia arranca com o carro. Estava confusa. Olhou para o relógio. 19 horas. Já estava atrasada para a festa da entrega dos prémios “que se lixe a festa e os prémios, agora tenho que resolver este problema”. Olhou para a filha sentada no banco de trás do carro. Sorriu.
-         Meissa, não tenhas medo eu não te vou deixar.
Desdobrou o papel e leu “Teresa, Bairro 244, rua 9, porta 28”. Digitou a morada no GPS e dirigiu-se para a morada indicada Porque raio Maria lhe tinha dado este endereço? Quem seria Teresa? Maria era já velhota mas sempre tomou conta de Meissa. Era carinhosa com ela, será que podia confiar? Com um certo receio, Sofia estaciona o carro num bairro já degradado. Algumas janelas abriram-se à sua chegada. Sofia, com a menina ao colo, procura o n.º28.

-         Quem procura? – pergunta um senhor de bengala na mão e com ar de poucos amigos.
-         Procuro D. Teresa. Do nº28.
-         É ali á frente – esclarece o velho senhor - Quem é você? O que quer de Teresa?
-         Essa agora! Que tem você a ver com isso? Obrigada pela informação. Passe bem – responde Sofia, vendo o velho senhor a afastar-se, resmungando.
É uma velha senhora que lhe abre a porta, já muito velhinha, curvada, de olhos vagos e transparentes.
-         Que deseja a menina?
-         Foi Maria que me mandou aqui.
-         Ahhhh .... Maria, sei.... Como está ela? Há muito que não a vejo. Entre.
Sofia entra para uma pequena sala escura onde havia muitos brinquedos e livros espalhados.
-         Sente-se e diga lá o que quer de Teresa.
-         Não sei... A minha menina... a minha menina...
Meissa brincava com os brinquedos que estavam na sala. Teresa não teve qualquer dificuldade em reconhecer os sinais claros e videntes do autismo.
-         Há muitos anos fui professora de crianças autistas. Agora sou uma velha louca para aqui jogada, esquecida...
-         Professora de crianças autistas? Mas elas não têm IP... Ensinava o quê?
-         Todas as crianças podem aprender. Tem que se perder tempo com elas. Agora não se perde tempo com quem não é produtivo. Só a produtividade é importante. No meu tempo era diferente, todas iam à escola. Vivíamos num Estado Social. Lutei muito pela integração destas crianças, lutei muito pelo Estado Social, mas eles venceram... malditos – Teresa bate com a bengala no chão e repete – Malditos, malditos....
-         Não quero ficar sem a minha filha, não a quero depositar num lar... como é que isto pode acontecer? Eu tenho um IP acima da média.
Sofia lembrou-se que naquele momento estariam todos à sua espera, ia levar uma falta indisciplinar, se coisa pior não acontecesse.
-         Diga-me o que devo fazer? Ajude-me...
-         Não podes fazer nada. Não é possível diagnosticar o autismo durante a gestação. Se fosse ter-te-iam obrigado a abortar. Assim, nada mais podes fazer. No lar ela viverá, mas ninguém vai perder tempo com ela, apenas lhe darão o mínimo para sobreviver. É a nossa lei, é a paz podre em que vivemos.
-         Já disse que não a vou pôr no lar – Sofia agora chora, de dor e de raiva.
-         Se não a queres por num lar, junta-te aos resistentes, mas já te aviso, que irão à tua procura e, se te acharem, serás severamente castigada.
-         Resistentes? Quem são? Resistentes ao Estado? Resistentes à lei? – tanta coisa que não sabia, tanta coisa de que nunca tinha ouvido sequer falar....
-         A sul, existe uma Aldeia de resistentes... um grupo de pessoas que vive lá, não aceitaram a nova ordem... a Nação deixa-os lá ficar, bem longe para não “contaminarem“ o resto dos habitantes com as suas ideias.
-         Que ideias?
-         Eles defendem a igualdade entre os seres humanos. Defendem que o ser humano deve ser respeitado, independentemente do seu IP.
Sofia olha para o relógio. 8 horas. Tinha que ir à fábrica, tinha que ganhar tempo, tinha que pensar nisto tudo.
-         Teresa, ficas com a menina por duas horas? Tenho dinheiro para te pagar esse trabalho. Sabes, tenho que fazer uma coisa na fábrica, tenho que ganhar tempo, se não for, será pior.
-         Vai sim.. Não temas, nós vamos ficar bem - Teresa sorriu. O autismo não a assustava, toda a sua vida conviveu com crianças autistas. – Não é necessário pagares, não entendes ainda mas há coisas mais importantes que o dinheiro.
Sofia seguiu directamente para a fábrica. Já não teve tempo de ir a casa tomar o seu duche, de trocar de roupa, mas não era nisso que pensava, pensava em Teresa, no que esta lhe tinha dito. Estado Social? Escolas para ensinar crianças sem IP, para quê? Se elas nunca seriam capaz de produzir? Todos igualmente respeitados sem ter-se em conta o seu Índice de Produção? Seria isto possível? Ou Teresa seria uma velha louca e senil que não sabia o que dizia? Que dia aquele!… De uma hora para a outra a sua vida desfeita...
-         Peço desculpa, mil perdões, mas senti-me indisposta, nada de grave, já passou – desculpou-se Sofia, ao chegar à fabrica onde era aguardada – Tanta honra para mim!
-         A Fábrica Electreto, SA irá atribuir, pela oitava vez consecutiva, o prémio de produtividade a Sofia Silva. Passo a palavra a sua Excelência o Presidente da Nação.
Enquanto decorria a cerimónia da distribuição dos prémios, o pensamento de Sofia estava distante. Um turbilhão de ideias lhe vinha à mente. Não via hora de tudo aquilo acabar. Parecia-lhe estúpido, agora, todo aquele cenário. Parecia-lhe estúpido dar-se tanta importância ao Índice de Produtividade. Queria ir embora, queria saber mais sobre a aldeia dos resistentes, queria saber mais sobre o Estado Social. Tinha mil coisas para perguntar a Teresa. Porque raio não havia livros que falassem sobre isto? Teresa era muito velhinha mas era viva, sabia coisas que ela, Sofia, nunca aprendeu. Por que motivo ninguém lhe tinha falado nisto? Afinal havia outras modalidades de Nação... Tinha que saber mais...

Parte II

Já passava das 10 horas da noite quando Sofia chegou à casa de Teresa e antes que pudesse perguntar fosse o que fosse, Teresa explicou:
-         Estás então decidida? Tens a certeza que queres partir? Já resta pouco tempo...
-         Claro que estou decidida, não vou pôr a minha filha no lar, nem pensar em tal coisa. Sabes, estive a pensar e gostava que me contasses mais coisas sobre essas escolas especiais, sobre o Estado social.
-         Agora não há tempo para isso. Ouve com atenção: vais a casa, desligas o chip to teu carro, arranjas uma mochila com alguma roupa e comida para ti e para a menina, calças uns ténis bem confortáveis, que vais ter que andar muito, e partes. Toma esta bússola. Segues para sul ... aqui. Vês neste mapa? Aqui na estrada vais encontrar um posto de abastecimento energético. Procura o dono e diz-lhe que vens da minha parte. Vai agora. Boa sorte.
Teresa entreabriu a janela e viu-a partir. Sentia-se muito cansada, já não tinha idade para estas coisas, já tinha mais de 100 anos. Interrogava-se muitas vezes porque vivera tanto...
Sofia cumpriu à risca todas as instruções de Teresa e partiu rumo a sul. Meissa chorava. Estava agitada, não gostava de coisas fora da sua rotina, já devia estar a dormir há muito tempo. Foi uma viagem difícil.
Ao chegarem ao posto de abastecimento já era muito tarde. Dali a mais um pouco o sol nasceria. Sofia viu uma luz acesa e bateu à porta devagarinho.
-         Venho da parte de Teresa, é a Sofia.
-         Deixa o carro aí e segue-me. Eu levo-te lá... vamos a pé. Eu levo a menina. Temos que caminhar depressa
Em silêncio, caminharam por meio de uma mata até que avistaram o mar. O homem tira uma lanterna de luz pálida e acende-a. Do mar recebe o sinal: uma luz que se acende três vezes seguidas por um breve instante.
-         Podes seguir. Ali em baixo está um bote. Rema até lá.
-         Obrigada, como te chamas?
-         Francisco. Vai.
“Certamente que vamos morrer as duas. Como chegarei lá, no meio desta escuridão?” Sofia, cansada e desmotivada, entra no bote. Meissa adormeceu e ela remou como sabia, como podia. De vez em quando, a luz que vinha do mar acendia-se, guiando assim o seu caminho. Por fim, sente o remo a bater nas areias da praia. Finalmente chegaram. Tenta puxar o barco para a praia e desfalece na areia. O sol nascia.
Quando acordou, Sofia não sabia onde estava. Sentia-se assustada, cansada e com muita fome. Levantou-se. No quarto havia apenas uma cama e uma cadeira onde estava a sua mochila, na janela uma cortina de cores garridas que encobria o sol que já ia alto. Ouvia cantar. Estava ali alguém que cantava... depois ouviu a voz de Meissa:
Alecrim Alecrim dourado
que nasceu no campo sem ser semeado
Alecrim Alecrim dourado
que nasceu no campo sem ser semeado
Ai meu amor quem te disse a ti
que a flor do campo é o alecrim

            Nunca tinha ouvido Meissa cantar. Sentiu-se feliz, apesar de estafada.
-         Anda comer. Deves ter fome, como te chamas? A tua menina é muito gira, mas muito fugidia, de poucas falas... Não quis brincar comigo, estava agora a ensinar-lhe uma música. Parece que ela gostou – exclamou uma rapariga muito alegre e bem dispostas – Anda, vou-te dar de comer.
Sofia saiu do quarto. A porta dava para uma sala grande onde havia uma mesa. Debaixo a chaminé o fogo estava aceso e em cima das brasas, uma panela. Sofia nunca tinha visto nada assim, tinha certamente viajado no tempo. Como era possível ainda existir alguém que cozinhasse daquela maneira? A rapariga colocou em cima da mesa um prato de sopa. Sofia comeu. Estava boa. Nunca havia comido uma sopa tão boa.
-         Come mais, se tens fome.
-         Posso?
-         Claro que podes – sorriu a rapariga – Chamo-me Leonor. E tu?
-         Sofia. E ela é Meissa.
-         Vieste para aqui por causa dela não foi?
-         Sim.
-         Daqui a nada eles estão aí. Vais gostar de estar aqui. É muito bom. Eu estou contente. Agora já tenho com quem brincar.
-         Não andas na escola?
-         Escola? Ahh, sei, escola, aqui não há escola.
Sofia saiu lá para fora. Estranho lugar aquele! As casas eram rudimentares, não se via um único poste ou fio eléctrico. Não se viam carros, nem lojas.

Parte III

Aos poucos, começavam a chegar pessoas. Cumprimentavam Sofia com um olá e diziam o seu nome. Ninguém perguntou quem era. Ninguém lhe perguntou o que fazia ali. Sofia temia que Meissa descompensasse, mas esta brincava no baloiço, indiferente a tudo, como se nem tivesse dado pela presença deles. Até que chega um rapaz que se dirige a Meissa. Esta sai do baloiço e corre para a mãe.

-         Olá, desculpe. Ela está um pouco estranha ainda.
-         Olá, eu sou o Pedro, como se chama a menina?
-         Meissa.
-         Tem o nome de uma estrela da constelação de Orion. Meissa, lindo nome. Meissa, olha para mim – Meissa enfia a cara no colo da mãe – Não te preocupes. Ela é autista, não é?
-         Sim.
-         Sou médico. Ela aqui estará bem, não tens nada que recear. Recusaste a ideia do lar. Fizeste bem. Aquilo é uma coisa desumana. Trabalhei num antes de vir para aqui. Fizeste muito bem em ter dado a primeira golada na poção mágica.
Sofia sorriu sem saber muito bem o que devia responder. Que queria ele dizer com a primeira golada na poção magica? Também não perguntou. Não queria fazer figuras tristes de ignorante. Não sabia as regras da aldeia, ainda ninguém tinha falado em levá-la ao chefe, ainda ninguém lhe tinha explicado nada. Sofia não sabia que atitude devia tomar. Certamente alguém lhe diria onde ia trabalhar. Ela estava feliz desde que a menina fosse bem tratada. Daria o seu melhor, como na fábrica. Esta lembrança da fábrica deixou-a angustiada. Ela era a melhor trabalhadora. Certamente já teriam ido procurá-la. Tinha medo de pensar nisso.
Durante o jantar falou-se de muitas coisas. Falavam em comunicar com outras aldeias de resistentes, noutras nações. Este parecia ser o problema do momento. Pelos vistos, ali também não havia um sistema de comunicações eficaz. Ali era tudo muito primitivo, mas a comida era deliciosa, muito melhor que aquela que ela conhecia, já feita e que se vendia nos supermercados. Sofia ia ouvindo a conversa. Não entendia muito bem. Falavam de coisas que ela nem sequer se tinha atrevido a sonhar. Depois, já tarde, alguns foram embora, outros ficaram lá fora, tocando e cantando baixinho.
-         Vai dormir, Sofia, tens que descansar – Pedro sorria-lhe – Vais ver que a menina ficará bem aqui e tu também.
-         E amanha como é? Onde vou eu trabalhar? Não vi nenhuma fábrica.
-         Aqui não há fábricas.
-         Então vou trabalhar aonde?
-         Tu é que sabes. Farás o que quiseres, o que gostas.
-         Quem é o chefe da aldeia?
-         Ninguém, não temos chefe – Pedro piscou o olho - não gostamos de chefes. São uns chatos, com a tanga da produtividade.
Bonito. Uma aldeia sem chefes. Ninguém a mandava trabalhar. Sofia sentia-se um pouco confusa. Não entendia aquela organização, mas eles pareciam entender. Durante o jantar, falaram. Alguns não estavam de acordo e explicavam porquê. Sofia estava habituada a receber ordens concretas e precisas. Acabou por adormecer a tentar compreender esta nova maneira de se viver.
Acordou bem cedo. Tomou banho de água fria. Não sabia como eles faziam. Em sua casa bastava abrir a torneira e a água saía quente. Lá fora, a vida acontecia. Parecia que ninguém tinha ido trabalhar. Ninguém usava uniforme. Uns conversavam ainda sobre as comunicações, outros tratavam de uma enorme horta, outros tinham saído de barco para ir buscar peixe. Sofia não sabia que havia de fazer. Andou por ali um pouco perdida e, por fim, foi ajudar Leonor a regar as plantas. Depois acercou-se junto de Cristina. Esta cozinhava. Viu com atenção. “Então é assim que se faz a comida! Muito diferente das fabricas!”
Os dias foram passando calmamente. Aos poucos, Sofia ia entendendo o que eles falavam. Ficou a saber que em tempos houvera um estado social, ficou a saber que havia sistemas políticos e económicos que se baseavam em doutrinas onde não havia poder. Mas o problema na aldeia parecia ser um único: era urgente comunicar com as outras aldeias. E, durante um certo jantar, tomou uma decisão.
-         Temos que encontrar uma solução, isto tem que avançar. A civilização caminha para a frente, não para trás. Temos que tomar medidas.
-         Para isso, teríamos que comunicar com os outros. Enquanto não resolvermos isto, nada feito. É o mesmo que nos metermos num covil.
-         Porque não construímos um sistema de comunicação, através de ondas magnéticas? - perguntou Sofia. um pouco receosa de que não achassem a sua ideia boa.
-         Muito boa ideia, Sofia. E quem faz essa geringonça?
-         Eu. Eu sei fazer. Eu sou engenheira electrotécnica.
-         Hummmm, assim o caso muda de figura.
-         Como muda de figura? Certamente são necessárias peças, fios, antenas e essas coisas. Onde as vais buscar?
-         Pedimos ao Francisco.
-         Aaah sim? E como é que ele as vai comprar?
-         Isto tem que ter solução. Vamos pensar numa maneira de arranjar as coisas que necessitas. Faz a lista.
Sofia levantou-se e foi ao seu quarto. Pegou na mochila. No fundo, dentro do forro, estava o dinheiro do seu prémio de produção. Era muito dinheiro.
-         Eu tenho este dinheiro – diz Sofia, despejando na mesa uma boa quantia de notas - O prémio que recebi antes de vir para aqui. Quis dá-lo à Teresa mas ela não quis.
-         Amanhã mesmo vou à banda de lá levar este dinheiro e pedir as peças.
Sofia sorriu, depois olhou para o Pedro e piscou o olho, dizendo:
-         É a minha 2ª golada na poção mágica. Vão ver. Muito em breve estarão em comunicação com todas as aldeias resistentes. Também farei uma tipografia, ainda que rudimentar, reproduziremos panfletos informativos pelos habitantes da cidade.Aos poucos, as pessoas ficaram informadas que há um outro caminho melhor ou seja, distribuímos a poção mágica um pouco por todo o mundo, ensinando quão importante é desobedecer às ordens da Nação.
....

Em Portugal, todos os dias são aprovadas leis que têm como único objectivo acabar com o estado social. Em Portugal, existem pessoas que lutam por um sistema político e económico diferente. Atreve-te e junta-te a elas.

(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)

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