"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

VII

O Planeta da Matemática
Episódio
Passeata na Recta Real







Dizem que, quando somos crianças, basta fechar os olhos devagarinho, deixar o pensamento correr, para embarcarmos no mundo do imaginário. Aí as histórias acontecem... Depois crescemos e perdemos essa faculdade, as histórias da vida real roubam-nos essa capacidade...

Eu andava muito ocupada com essas histórias, as da vida real, nunca tinha tempo para fechar os olhos devagarinho e deixar o pensamento correr, mas, mesmo que o fizesse, não consegui libertar-me das histórias tristes que todos os dias acontecem. Porém, certo dia, o meu filho pergunta-me:

_ Mãe, o que é exactamente um número? Quero ver um.
_ Ah, ah, ah. Ver? Pegar num? Mas isso não é possível... Deixa ver se eu te consigo explicar... Um número define uma quantidade. Uma laranja, uma flor, uma estrela.
_ Mil estrelas, as estrelas são mil não é?
_ Não sei quantas são... Mas acho que são mais de mil...
_ Mais? Depois não vamos ter números que cheguem para as contar.
_ Vamos pois, os números nunca acabam... Deita-te aqui, fica sossegadito, fecha os olhos devagarinho, vou-te contar uma história.

A tarde estava morna e o sol batia-nos na cara, o silêncio era quase total. Apenas se ouvia o chilrear dos passarinhos. Também eu fechei os olhos devagarinho e deixei que o meu pensamento corresse.

_Que terra é esta??
_Hum, deixa cá ver… Se não me enganei no caminho, estamos no país dos números.
_ Boa, afinal sempre vou poder ver um número.
_Olha! Está ali alguém. Vamos lá perguntar.

À minha frente, uma rua muito comprida. Tão comprida que não consegui ver o fim. Comprida e muito direitinha, nada de curvas e contracurvas.

_Boa tarde! Viemos do planeta Terra. Podemos dar uma voltinha por aqui? – perguntei eu ao senhor muito gordo, tão gordo que mais parecia uma bola, e que estava parado mesmo no meio da rua.
Ele sorriu e respondeu:
_ Claro que podem. Bem-vindos ao planeta da Matemática. Mas isto aqui é muito grande. Uma vida humana não chega para conhecer todo o planeta.
_ Bem, sendo assim, se calhar o melhor é ficarmos cá por uns tempos. Haverá por aqui algum hotel? Pode ser nesta rua.
_ Esta rua chama-se Recta Real. É aqui que moram todos os números. Eu sou o Zero, moro mesmo no meio da rua. Sou o número mais importante.
_ Está calado, que só dizes disparates. Tu nem vales nada, ou melhor, vales zero. - Quem falava assim era o vizinho do senhor que mais parecia uma bola, o senhor Zero – Eu, sim, sou importante. Sou o número Um, o primeiro.

O Senhor Zero ficou muito zangado. Deitou a língua de fora ao senhor Um, respondendo:
_ Primeiro coisa nenhuma. Explica lá como és o primeiro se eu estou antes de ti? Querem lá ver isto! Ó pá, cala-te, és tão fininho que ninguém te vê.

Que grande discussão que estava ali armada! Eu e o meu filhote, o José Pedro, já nem sequer nos atrevíamos a dizer nada. Os ânimos estavam exaltados. Foi então que o José Pedro começou a olhar para aquela rua tão estranha e exclamou:
_ Mãe, repara. Todos os números têm um irmão gémeo.
_ Pois é, isto é mesmo muito estranho. Há dois números uns, dois números dois, dois números três...
_ Tem lá calma, puto. Tu aqui és um visitante e já vi que não entendes nada disto. Gémeos coisa nenhuma. Somos ligeiramente diferentes. Aquele ali é positivo e eu sou negativo, logo, somos diferentes – esclareceu o número Um negativo.
_ Não sabem ler as placas? Para que é que eu andei com este trabalho todo a pôr placas aqui? Que balbúrdia vem a ser esta? Ordem na recta! Ordem! – gritava um senhor, humano, muito velhinho com uma longa barba branca - Olá visitantes. Eu sou o Pitágoras. Deixei o planeta terra há muitos anos e vim morar para aqui. Sempre é mais agradável.
_ Olá, já ouvi falar de ti – respondi.
_ Ouviste? A propósito de quê? Deixei o planeta terra há muitos anos...
_ Lá na terra és famoso, famoso e odiado por muitos alunos...
_ Deixem-se de conversas e vejam as placas.

O José Pedro atravessa a rua para ver a placa que estava atrás do senhor Zero, quando ouve um grito.

_ Seu bruto! Não me esmagues que também somos números. Ui, ui, que dores! Grande pisadela, seu cegueta. Não vês onde pões os pés?

Baixei-me para ver quem gritava daquela maneira. Tive que colar os olhos em cima da recta e vi ali um número muito pequenino... Aliás, vi uma montanha de números pequeníssimos...

_ Deixa-te de choradeiras. Vamos lá pôr ordem aqui - Pitágoras estava desesperado com aquela confusão toda. Parecia que na terra da matemática a palavra de ordem era mesmo ordem. – Ali, atrás do Zero, a placa diz: Recta Real. É o nome desta rua À direita de sua Exa., o Senhor Zero, estão todos os números positivos. À esquerda, todos os números negativos. O número Zero é o único que não tem irmão “gémeo”. Aqui nesta terra a gente gosta de ordem... Todos os números são importantes. Até mesmo o Zero.

O sol agora mergulhava devagarinho no rio. Senti frio, abri os olhos e estava no Planeta Terra.
_ Mãe, já sei o que é um número! - diz o José Pedro, dando-me um abraço.
_ Um outro dia, a gente volta àquela tão fantástica terra...


(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)

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