"E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?"
Saramago

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

V
A Menina que não gostava de falar

Desenho de Rui Veleda

O Autismo é uma perturbação do desenvolvimento que afecta a comunicação. Muitas crianças dentro do espectro do autismo recusam-se a falar. Em Portugal  uma criança em cada mil está dentro do espectro do Autismo. As famílias não dão tréguas à luta contra o Autismo .
A história que eu vou contar é verídica e mostra bem que o amor vence todas as barreiras.”



A Menina que não gostava de falar

Estou aqui às voltas a tentar escrever uma história acerca de uma menina que não gostava de falar. Como não gostava de falar, não falava e, assim sendo, ninguém sabia por que motivo ela não gostava de falar.

Estou a tentar perceber o que é isso de falar, o que são as palavras e para que servem. Já há muito tempo que muitas pessoas andam às voltas com esta questão e ninguém ainda descobriu por que motivo há meninos que não gostam de falar.

Mas voltando à história da menina que não gostava de falar.

A mãe da Rita andava muito triste. Todas as suas amigas tinham filhos que diziam ”dá, rua, mamã, papá…” e a sua Rita nada dizia. Veio o doutor e disse:

- Vamos lá ver se a menina não tem uma pequena avaria nas cordas vocais. Às vezes acontece...
E o doutor viu e tornou a ver.
- Hum, está tudo bem, que se passará?
A pequena Rita sorria, mas nada dizia.
- Ãhhh, já sei! A menina não fala porque não ouve, se não ouve não sabe como são as palavras, por isso não fala.

Mas a menina ouvia porque dançava sempre que a música tocava.

A mãe da Rita andava muito triste. Como seria bom ouvir a pequena Rita falar! Sonhava dia e noite em ouvir a sua voz, mas o certo é que a pequena Rita ia crescendo e não dizia uma palavra...

A Rita tinha um tio muito rezingão, o Ti Rui, como todos lhe chamavam. Ele estava encarregado de tomar conta dela e tudo fazia para que a pequena Rita falasse.

Contava histórias, levava lá para casa animais que encontrava na rua, mas a Rita nada dizia. Apenas sorria. Há muitas maneiras de falar e, quando a Rita queria dizer “gosto de ti, Ti Rui”, apertava-lhe a mão com muita força. Não havia necessidade de palavras, bastava ela pensar.

Um dia, passeava o Ti Rui na rua e viu uma pobre bicharoca, que não era nem um cão, nem um gato, ferida numa patinha.
- Anda cá bicharoca – chamou – o que tu és?
- Eu sou um Sacarrabos.
- Es tão gira. Como te chamas?
- Margarida. E tu?
- Eu sou o Rui, mas podes-me chamar Ti Rui, como todos.
- Queres ser meu amigo?
- Claro que sim, vou-te levar lá para casa e tratar dessa patinha.

Ao chegarem a casa, a Margarida percebeu logo que o Ti Rui era muito rezingão:

- Sai daí Margarida, não me roas o sofá!!! O quê???? Estás deitada na minha cama.... Ufa ainda não fiz o jantar... não te empoleires, ai que estragas isso ... Ohhh!!! Derramaste tinta em cima dos meus desenhos...

A Margarida não se ralou nada com os resmungos do Ti Rui e num instantinho toda a casa parecia um campo de batalha.

Mas, apesar disso, Margarida continuou a viver em casa do Ti Rui e tornou-se a maior amiga da Rita. As duas brincavam muito e o melhor ainda é que a Margarida não parecia nada chateada por a Rita não falar. Elas comunicavam por telepatia, ou seja, bastava a Rita pensar e a Margarida sabia logo o que ela dizia e o mesmo acontecia em relação à Margarida.

- Rita, sabes, o Ti Rui é muito resmungão, mas gosta muito de ti. Porque não falas com palavras?
- Eu não gosto de palavras. Elas ralham e mandam a gente fazer coisas que não queremos.
- Mas as palavras também podem ser doces, podem contar histórias lindas.
- Vou pensar no teu caso, Margarida, mas não é preciso eu falar. O Ti Rui sabe que eu gosto dele.
- Como sabe? Ele não lê pensamentos, eu tenho que usar palavras para falar com ele e acho que devias fazer o mesmo.

E se fosse verdade? Se o Ti Rui não soubesse ler pensamentos não sabia que ela, Rita, gostava muito dele. A Rita começou a ficar muito preocupada com esta ideia. Ela sempre pensou que o Ti Rui lesse o seu pensamento.

Naquela tarde, quando o Ti Rui chegou do trabalho com as mãos cheias de presentes, a Rita correu para ele.
- Onde está a Rita???? - esta era a pergunta de sempre. E a Rita, como sempre, não respondeu. 
- Onde está a Rita? - voltou a perguntar o Ti Rui. E, como ela não respondia, perguntou uma terceira vez:
- Onde está a Rita?

Então era verdade. O Ti Rui não sabia ler o seu pensamento. A Margarida tinha razão. Furiosa, a Rita responde com um grito:
-Tá aqui!


Os presentes que o Ti Rui tinha na mão caíram todos no chão, tal foi a surpresa. Eufórico, saiu para a rua e contou a toda a gente:
"A Rita falou”


(histórias sem pés, nem cabeça – Liberdade)
Para o meu amigo Rui Veleda :)

4 comentários:

  1. Não comento coisas das quais gosto muito!

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  2. Se disse gosto diria muito pouco!!!
    A Inês (Rita) Há-de gostar um dia!
    Beijinho dela!

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  3. Respostas
    1. Só mesmo quem vive esta realidade do autismo entende como são importantes as palavras, mesmo que seja só uma, não deixa de ser uma vitória ... tenho bem presente a ms do Rui a relatar este facto, o da Inês ter dito " TÔ QUI"

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